quarta-feira, novembro 05, 2008

O velório

A curiosidade do ancião era tanta que um dia ele resolveu fingir de morto só para ter uma idéia da sua popularidade enquanto vivo. Sabedor de que os índios Terepuias usavam uma espécie de poção para dormir por um dia, a fim de atrair os espíritos dos seus ancestrais, Pafúncio foi até a comunidade namuncurá buscar o tal remédio. Dia seguinte, já estava de volta com o milagroso chá. Com a primeira parte da estratégia pronta, passou para a segunda que consistia em fingir-se de muito doente. Desse modo enganou, também, até a própria família, que sem outra alternativa providenciou a presença de um médico da região para periciar e emitir o laudo cadavérico e assinar o competente óbito.
Como a "morte" aconteceu de madrugada, a família resolveu sepultá-lo naquele mesmo dia; tempo insusuficiente para ele "ressucitar" bem informado sobre as condolências dos verdadeiros amigos do peito...
O infeliz esqueceu-se de que o efeito da poção era de um dia e que o enterro seria feito com apenas treze horas de antecedência após a ingestão do sonífero. Depois da cerimônia fúnebre, o coitado ainda continuava dormindo como um urso hibernado.Terminado o efeito do remédio ele, de posse das preciosas informações contidas no seu mini-gravador, tentou sair do caixão que ja começava a sufocá-lo. Desesperado, ao perceber o tamanho da asneira em que havia se metido, começou a espernear e a gritar por socorro. Para seu alívio, o seu pedido foi prontamente atendido. Era uma voz cavernosa que lhe pedia paciência. Pois a sua libertação estava próxima; tão próxima que ele ainda pode ver e ouvir o gargalhar da própria morte!