segunda-feira, agosto 28, 2006

TALVEZ....

Rostinhos juntos, espremidos, numa só janela da sala do apartamento; olhares curiosos com o que se passava lá embaixo, no pátio interno da quadra 209 sul, era o prenúncio de contumaz inquirição: “venha ver nossos amiguinhos, papai... Lá vão eles, todos os fins de semana, passar o dia nos clubes” E rematavam “ E nós, papai, por que não vamos, também?
Eu havia sido transferido para Brasília, capital federal, há pouco tempo, e não me tinha dado conta de que o Clube do Exército era uma das poucas opção de lazer para nós militares! Alguns companheiros de farda tinham seus próprios apartamentos e chácaras, adquiridos há algum tempo, com certas facilidades, como prêmio por terem sido pioneiros do local...
Todas as segundas-feiras, nos folguedos do recreio, os alunos comentavam sobre as peripécias do fim de semana, para martírio dos meus filhos que tudo ouvia com uma pontinha de inveja no coração!
Na verdade, eles não entendiam o porquê da nossa garagem estar sendo ocupada pelo carro do vizinho, que tinha dois, enquanto nós não tínhamos nenhum! E sempre que me questionavam a respeito, eu simplesmente respondia com um evasivo “talvez”.
O fato é que eu não podia dar esperanças por algo que no momento era absolutamente impossível. O “talvez” agia como uma válvula de escape às minhas respostas evasivas.

Era como se eu afirmasse que um dia chegaria a nossa vez de conseguirmos um lugarzinho ao sol...
Eu e minha mulher, jamais queríamos que nossas crianças soubessem da dificuldade financeira pela qual passávamos.
Ao saírem da janela, acabrunhados e cabisbaixos, iam direto à cozinha questionar a mãe sobre a minha falta de compreensão, já que seus amiguinhos sempre indagavam sobre suas ausências!
Nesse ínterim, era a minha vez de, furtivamente, dar uma ligeira espiada pela janela.
Realmente doía-me o coração ao ver aquela criançada, aboletada nas caminhonetas e carros, onde até os cães também disputavam um lugarzinho junto aos seus inseparáveis donos, enquanto os meus filhos se lastimavam no quarto ao ouvir aquela algazarra, misturada a ruídos de motores e toques intermitentes de buzinas! Certamente, mais um fim de semana de lazer já estava acontecendo!...
Porém, sempre confiante em Deus, acreditei que um dia as coisas também iriam melhorar para nós. E foi o que realmente aconteceu: resolvi os meus problemas com os bancos, hospitais farmácias e agiotas... Finalmente, comprei uma Brasília amarelinha, com pequena entrada e módicas prestações.
Agora sim podíamos acompanhar o pessoal nos fins de semana, não mais como caronas!
Certa vez, um dos meus filhos observou que eu dirigia perigosamente enquanto tentava espanar algumas lágrimas que me embaçavam a visão: sua voz em tom preocupante sobressaiu à cantoria e ecoou nas entranhas da minh'alma; então, como resposta, apenas sorri.

Afinal, uma emoção forte, acompanhada de dóceis e mornas lágrimas, também pode chamar-se FELICIDADE!


Conto de João Bueno

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