quarta-feira, abril 26, 2006

Orgasmo

Dois corpos sobre a relva, interados
Movidos por gracioso sincronismo
Se entregam como eternos namorados
Dos tempos de sublime romantismo:

Aos poucos as gotinhas sudorais
Salpicam-lhes os membros deslisantes
Enquanto o libido, mais e mais
Emprestam-lhes imagens luxuriantes...

E os lábios beijam carnes, rubras, tensas
Que se transforma em ais gemidos fortes
Prenúncio de reconfortante espasmo

Nem mesmo nesse instante a própria morte
Seria tão audaz, mediante ofensas
Para inibir do ato intenso orgasmo!

Aniversário

Aniversário quer dizer um ano
Ou outros mais de vida passageira
De esperanças ou de desenganos
Ora morosa ou então ligeira

Dizem, acúmulo de experiência,
Anos vividos, dúbia caminhada
Outros entendem como decadência,
Senilidade, horas já contadas...

Mas eu, poeta, mais quintessenciado
Opino agora sobre o fato em tela,
Para pôr fim a tola discussão:

Não obstante, acho a vida bela
Se os anos idos, bem vivenciados,
Forem isentos de desilusão!

segunda-feira, abril 24, 2006

Crepúsculo Santista

Descamba a oeste, no horizonte matizado,
Bruxuleando luz violeta, o sol poente
Entardecendo o ceu santista, irisado
Macro-espetáculo, encanto de tanta gente

No estuário, um vai-vem barcos, lentamente
Cheios de sonhos, esperanças e riquezas
Enquanto estola ou se ascendem, habilmete,
A passarada, indo e vindo, com leveza

Do alto a lua espia o astro que avança
Rumo trasmonte após proeza espectral
E assim assume, noite a denro, a liderança
De amada-amante nas fímbrias celesteal...

E o mar-amigo, para abrilhantar o evento
Com seu poser de viração, irresistível
Espelha as águas da baia, que portento
Propiciando um arrebol indescritivel!

quinta-feira, abril 20, 2006

Virgem Maria

Do corpo esbelto da feliz donzela
Formas radiantes se avultando vão
E ao mundo em festa algo se revela
Pela santíssima concepção!

Semente viva, um pulsar constante

No ventre-sacro do mais puro amor
Faz da futura mãezinha exultante
Bendita amante a sorrir na dor

Chegada a hora, divinal momento
Do olhar sereno que a todos seduz
Brotam gotinhas, lágrimas brilhantes

E os Anjos prestos revelam o evento:
É Nazareno, o menino Jesus,
O Prometido a ti confiado antes!

Morte

O tempo passa e com ele vai
Toda uma vida palmilhando o chão
No fim da estrada ela se esvai
Enquanto o espaço fecha-lhe o portão

São tantas vidas ignóbeis, santas
Nesse trajeto de espinho e flor
Onde se avulta o mal, e o bem encanta
Num paradoxo entre ódio e amor

O livre arbítrio é opcional:
Cada elemento é um diabo ou santo
Independente do poder supremo...

Mas só a morte mostra o terminal
Ao moribundo cérulo de espanto
Onde está Cristo ou, então, o demo!

quarta-feira, abril 19, 2006

MÃE

Se me deste à luz por dares
Simplesmente por prazeres
Te repilo com esgares
Renegando os teus poderes

Se me deixaste alhures
Compenetrada do ato
Minhas mãos jamais segures
Não te pertenço de fato

Se me honraste, contudo
E de nada me privaste
Então devo ficar mudo
Ao gesto que praticaste

Mas se repartiste o prato
Comigo e noites sofridas
Então a ti serei grato
Minha mãe, por toda vida!

quinta-feira, abril 13, 2006

DESENLACE

Não há motivo para tanto desespero
Quando se perde para a morte algum ente
Se atentarmos para o transe passageiro
E ao despertar p’ra outra vida num repente

Claro me faço para aquele tão descrente
Com argumentos próprios da filosofia:
"Tudo transforma-se, neste mundo latente
Nada se perde e também nada se cria”

Quer seja o corpo putrefato pelos vermes
Ou mesmo a alma integrada na harmonia
Ambos vibráteis são repletos de energia

E essa força, íon-etéria, não inerme
Tudo reativa como um passe de magia
Reanimando o universo até o cerne!

segunda-feira, abril 10, 2006

METAMORFOSE

Das tantas formas que a vida assume
Somente uma deixa-me extasiado
Tal a maneira como se resume
Um micro-ovo metamorfoseado:

São larvas, pupas, vermes já imagos
Tais ninfalídeos ainda eruciformes
Que há bem pouco se prestavam a estragos
E que agora encasulados dormem...

Pingenteando muros, cercas, ramas.
Dançam ao léu crisálidas brilhantes
Brincos dourados de rara beleza

E desses bojos que o olhar inflama
Lepidópteros voam, triunfantes
Cromatizando a mãe natureza!