sexta-feira, março 31, 2006

ORA BOLAS

...
Sinto vontade indizível, louca
De pôr pra fora num papel timbrado!
Mil pensamentos, antes ruminados.
Mas sufocados não me sai da boca

Contudo estanco a ponta da caneta
Sobre o papiro branco, imaculado
À espera ansiosa do que foi pensado
E que não vem agora na veneta

Passam-se as horas, nenhuma letrinha.
E a inspiração ‘inda desacordada
Em desacordo não entra na linha

Então desisto, triste, acabrunhado
Vendo, afinal, que não escrevi nada
Além de pontos, traços e bolinhas!

terça-feira, março 21, 2006

A voz dos Palmares

Sou uma Palmares, raiz africana
Da cor do azeviche, pureza da raça
Do olhar cativante, luzente, que emana
Centelhas da alma, diamante sem jaça

O fel da injustiça sorvi com pavor
No chão da senzala perdi a inocência
Enquanto no tronco, perecia em dor
Meu grande amor recusando clemência

O peito arfante silenciou meu canto
Dos lácteos seios servi vis senhores
Fiz mil cafunés, entoei acalantos
Mas nunca aos meus, marginais sonhadores...

Porém, hoje, enfim, apesar dos pesares
Esforço inaudito, eis que rompo o grilhão
De volta aos Palmares, alvo dos feitores
Reduto de escravos, sagrado bastião

Tal e qual fênix, das cinzas, renascida
Regressei da luta, em prol da igualdade
Beijando o pendão da Pátria querida,
Cantando a canção “Salve a Liberdade”

quinta-feira, março 16, 2006

BUMERANGUE

Ali no catre, o velho moribundo
Entorpecido aguarda o desenlace
Enquanto a mente rememora um mundo
De ingratidão estampada na face:

Vê-se criança, adulto, um lutador
Recorda à amada, os filhos, muitos netos
Então percebe, foi um sonhador
Ao ser tirado do precioso teto

Assim é a vida, Deus sabe o que faz
Ingratidão é um mal, um bumerangue
Cujo retorno é sempre infalível

Hoje, tão jovem, amanhã, senil
E o desgraçado pelo gesto vil
Será punido pelo próprio sangue!

terça-feira, março 14, 2006

CONFISSÃO

Te amo tanto, tu não imaginas como
Perto de ti minh’alma aflita se extasia
Por queira que tu vás eu me assomo
Enfeitiçado de paixão e alegria

Não há distância para os meus pensamentos
Que a mim me trazem à lembrança a tua imagem
Oh, deusa minha, radiante monumento
Tão verossímel, apesar de ser miragem...

Quero que saibas dessa maneira insossa
De venerar-te, ocultamente, sem alarde
Desde o momento que te vi, ainda moça
Sem que esse modo de querer fosse covarde

Em não bastando os gestos vagos desses atos
No cotidiano, através de tantos anos
Quero que o tempo se encarregue desses fatos
Para atestar que o meu querer não foi profano

E mesmo assim, se isso tudo for tão pouco
Para que ouças o clamor dos rogos meus
Faças de conta, quem te amou foi só um louco
E que aos poucos te adorando pereceu!

MULHER


Bendita seja a mulher divina
Que entre todos os seres do mundo
Resplandecente, a vida ilumina
No seu sentido mais vero e profundo

O teu direito, quanto à igualdade
Que a ti pertence pela própria essência
Se compuscarda é uma iniqüidade
Insana afronta à santa providência:

Quem perpetua nossa humanidade
Com terno amor que a todos seduz
Quem mais percorre a estrada da vida
Dando guarida a quem falte luz?

Quem mais sorri, mesmo apesar das dores
Povoando o mundo de proles sem fim?
Ó Deus, é Ela, com justos louvores
Sem mais favores, é a Mulher, sim!

domingo, março 12, 2006

Papoula

Destruidora qual ofídio peçonhento
Mas portentosa como a rosa sobre haste
A flor-papoula, camaleão de tal evento
É tão grandiosa muito mais pelo contraste

Por entre pétalas em riste para a luz
Resplande o cálice bojudo, virulento
Intumescido pelo ópio que produz
Maldita praga a cumprir o seu intento

O seu poder é tão intenso sobre o incauto
Quanto a mil drogas geradoras de ilusões
Irreversível e de funesta conseqüência

E a pobre vítima tomada de assalto
Destrói-se toda e os outros corações
Acorrentada nos grilhões da dependência
!

Terceiro Milênio


Quando o homem dominar a matéria
E tudo sublimar-se, num momento
Livre de liame, o pensamento
Fluirá sem barreira deletéria

Assim, a terra, macro-santuário
Jardim d’Anjos, aprazível recanto
Berço de luz, reduto sacrossanto
Será feliz na “ Era de Aquário”

Não haverá, jamais, nenhuma guerra
Amor e paz serão uma constante
Nos corações isentos de maldade

E da harmonia que o universo encerra
Um turbilhão de vozes, nesse instante,
Canta mil hinos de felicidade!

Lacrau

Sob os escombros o lacrau recosta
Mirando o incauto sempre distraído
Enquanto encolhe o telso sobre as costas
Para que o impulso seja mais sentido

Se não bastasse o aguilhão dorido
O escorpionídeo injeta ‘inda a peçonha
Mortal veneno dentro do ferido
Já sem sentido pela dor medonha

Contudo o artrópode bicho asqueroso
Tem algo nato, um quê de altaneiro
Que o torna digno de admiração:

Chegada à hora, ato pavoroso
Diante da morte, um golpe certeiro
Crava nas carnes o próprio ferrão!

Infinito

O tempo-espaço no infinito está inserido
Assim como esse é o próprio firmamento
E o que chamamos de finito, por exemplo,
Nada mais é do que infinito dividido...

O infinito não tem começo e nem fim
Mas só finitos, à guisa de calendário
Desses “autores” que nunca souberam, enfim.
Que esse “real” jamais passou de imaginário!

Em conseqüência, infinito é só presente
Não tem futuro nem tampouco um passado
E seus finitos são, contudo, mensuráveis

Nascer, morrer, mesmo que dure um segundo
É estar no todo, num momento formidável
Do infinito, nessa imensidão de mundo!

Ciclo D'agua

Do pé da serra o veio d’água escorre manso
Timidamente, sobre terras ressequidas
Deixando atrás de si um rastro de mil vidas
E mais além, graciosíssimo remanso

Não pára aí a sua ânsia de progresso
Pois logo encontra num declive uma saída
E assim em ínvio progredir nessa decida
Seu caudaloso manancial corre possesso

Ó como é sábia a caprichosa natureza!
Onde o equilíbrio é o fator preponderante
Inquestionável para ninguém contestar:

O rio veio lá dos mares, com certeza
Do oceano, prisco veio, muito antes
Do veio d’água que retorna ao velho mar.

Arco-íris

O arco-íris lá no céu brilhando
Prenúncio de tempo bom que vai surgir
A brisa fresca beija muitas flores
Que em mil odores põe-se a sorrir

O céu azul redoma emborcada
Sobre o arco-íris fato singular
De cuja borda pendem nuvens claras
Flocos que os anjos pairam a cantar

O sol dardeja raios de esperança
No horizonte rubro de matiz
Tudo é premissa de real bonança
Mundo-criança alegre e feliz

A terra em festa vibra em harmonia
No mar ondinas cantam madrigais
Adeus tristeza, dor, melancolia
Bem-vindo dia de amor e paz!